Vivência

Sou um privilegiado! Apesar do longo tempo de vida e desgaste natural, estou intacto e apto a agüentar muito mais. Presencio incontável sucessão de acontecimentos, alguns ditosos, outros deploráveis. Alegro-me nas comemorações festivas e sofro com lágrimas, contidas ou extravasadas. Testemunho cenas de encontros e desencontros que muitas vezes me desestruturam. Obrigado à impassibilidade, sofro danos com investidas de adultos relapsos e crianças mal vigiadas, todos insensíveis à minha frágil constituição e ao meu valor material. Quando novo era admirado pela beleza; hoje, apenas pela classe que ostento. Participo involuntariamente de fatos que extasiam ou torturam, saudações eufóricas ou despedidas angustiantes. No desenrolar dos dias, sob iluminação solar ou negror da noite, assisto estupefato gritos, sussurros e lamentos. Contrariado, nada manifesto. Na casa chique que habito, especial cuidado devotam por temor a danos que me possam causar. No estado de inatividade total e esteticamente apreciado, enfrento o que pode acontecer-me como magnífico ornamento de sala. Orgulho-me de ser, ainda que desgastado e sofrido, um lindo tapete artesanal da Pérsia!

Outubro 2003

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